Arte em Poesias
 

   
 
     
     
 
 

Andarilhos
Cimar Pinheiro

Loucos, sem memória, vivem perambulando pelas margens dos caminhos.
Apagados, sem o brilho dos pirilampos.
 

 
 
 

No final do ano de 2009, eu andava sem inspiração e enviei aos amigos, como mensagem de fim de ano, um poema de Mário Quintana, cujo título é: Poema de Fim de Ano. Na passagem do ano aconteceu aquele trágico acidente em Angra, eu estava viajando e naquela semana escrevi o seguinte poema, em cima dos versos de Quintana:

Esperança
Cimar Pinheiro (com a licença de Quintana)

Ah! Quintana. Lá do décimo segundo andar do Ano
Antes de clarear a escuridão,
Ouvimos o espocar de um trovão
E ficamos loucos com tanta lama sobre nossas cabeças,
Com o reco-reco de ferros retorcidos,
Os berros, gritos e...  O silêncio!
Loucos! Tampamos os ouvidos e acordamos na calçada.
O povo aproximou-se aflito para assistir
O homem de vermelho retirar, debaixo dos escombros,
Nossos planos, nossos sonhos e nossa menininha de olhos verdes.
Em meio à tristeza e às lágrimas de nossos olhos,

Ela sorri para todos e diz bem
devagarinho:

- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA... Não esqueçam nunca...
 

 
 
 

Solitária solidão
Cimar Pinheiro

Seu corpo! Abandonado sobre as águas
À luz do luar flutuava.

Seios nus, braços nus, cabelos espraiados,
Lábios entreabertos, olhos cerrados.

A lua! Abandonada na escuridão
No infinito espaço pairava.
Magnífica, cheia, clara, cor de prata,
Inundava o mar com seus raios em cascata.

Os movimentos do salso argento
Espaçados em ondas sincronizadas,
Não quebravam o encantamento
De seus sonhos: metáforas encantadas!

O sol! Invadindo a escuridão
Com seus louros raios de luz.
Suavemente matizava a aurora
Nas cores delicadas dos cálices da passiflora.

Você! Saindo da água lentamente
Adormeceu sobre a fina areia.
O sol acalentou seu melancólico coração
Perdido em sua solitária solidão.
 

 
     
 

Você e eu
Cimar Pinheiro

Aquela imagem eterna, do seu rosto de menina
Naquela tarde chuvosa, ficou em minha retina.
Por você me apaixonei, na primeira vez que te vi
Seu olhar, a sua boca. Eu te beijei, não resisti!

Aquele beijo de amor, selou o nosso destino
Entreguei-te a minha alma, a vida, o coração.
Tomei uma decisão, apesar de ser menino
Você seria minha, sem nenhuma restrição.

Da nossa eterna paixão, nasceu uma linda flor
Para marcar a nossa vida, chamamos de renascer.
Por aquela menina rosada, fruto do nosso amor
Você tudo abandonou, só p’ra fazê-la crescer.

Tivemos muitos encontros, todos com muito encanto
Tivemos alguns desencontros, porém nenhum desencanto.
Por esses longos anos, juntos então ficamos.
Fracassamos, não! Simplesmente amamos.
 

 

 

 

Andarilho Perdido
Cimar Pinheiro

Por que não sou como os poetas,
Que fingem alegria e dor?
Saber brincar com as letras,
Cantar em versos este amor.

Mas Deus me fez um andarilho,
Solitário em meu caminhar.
Perdido na mata e no trilho,
Encontrando-me ao te amar.

Por que não sou como os artistas,
Que pintam alegria e dor?
Poder brincar com as tintas,
Encher de cores este amor.

Ah! Mas eu sou um andarilho,
Solitário em meu amargor.
Perdido na mata e no trilho,
Procurando o seu amor.

Por que não sou como o escultor,
Que esculpe alegria e dor?
Poder brincar com a argila,
Gravar seu amor na pupila.

Mas Deus me fez um andarilho,
Solitário em meu degredo.
Perdido na mata e no trilho,
Guardando este amor em segredo.

      

 
 
 

Rua das Flores
Cimar Pinheiro

Querido poeta dos Reis. Lá longe, onde o mar acaba,
Existe uma rua que vem do sertão, por onde as tropas,
Cansadas das subidas e descidas, adentravam ao povoado.
Uma rua cercada de flores, algumas corriqueiras, que crescem
Amontoadas às margens da estrada e enchem nossos olhos de cores.
Outras, de um branco angelical, perfumadas; um perfume inebriante
Que penetra em nossas entranhas, adocicando nossa alma.

Mas querido poeta, não vamos falar dessas flores, que belas e perfumadas,
Não podem ser comparadas aos encantos de outras tantas.
Vamos cantar nesses versos a coragem das madalenas e a graça das ondinas:
Discretas e observadoras. Flores guerreiras, madres eternas.
Exaltar a florescência das yolandas, e a perseverança das gildas:
Generosas e influentes. Flores equilibradas, companheiras imortais.
Mostrar a responsabilidade das olgas e a criatividade das cristinas:
Trabalhadoras sagradas. Flores ungidas, infinitamente perfeitas.
Louvar a vontade das sônias e o trabalho incansável das natalinas:
Reservadas e confiáveis. Flores persuasivas, perpétuas e dignas.

Ah! Amigo poeta. Não nos esqueçamos também o companheirismo das isauras,
A solidez das margaridas, a vontade das sandras e a disciplina das marthas.
Que entre tantas outras flores enobrecem a natureza desse nosso belo rincão.

(Este poema foi escrito em homenagem as eternas guerreiras da Rua das Flores, em Mambucaba, por quem nutro um infinito respeito).
 

 
 

 

 
 

SER CAIÇARA
Cimar Pinheiro

Certa vez me perguntaram: o que é ser caiçara?
Eu, dentro da singeleza do meu saber,
respondi que ser caiçara é sentir no coração
as mudanças da natureza, com a poesia de Deus na alma.

É acordar de madrugada, olhar o sol despertando a noite,
preguiçosamente, pra inundar a terra com a sua luz.
Ouvir o barulho das ondas do mar se achegando na praia,
espalhando sua espuma branca suavemente sobre a fria areia.

Espiar maravilhado o verde dessas montanhas salpicado de alegria
pelas flores do manacá, e chorar as chagas de Cristo ao ver
a mata se encher com o roxo das quaresmeiras.

É observar, pela fresta da janela, a chegada do inverno no grito das gaivotas,
com quem dividirei os peixes da minha rede, até chegar a primavera.
Receber com alegria, as rugas que cobrem este rosto cansado,
imaginando as tantas ondas que pulei sentado em minha canoa.

É poder assistir a escuridão da noite mergulhando na paz desse infinito mar,enquanto espero, tranquilamente, a minha hora chegar, e quem sabe:
no meu acerto de contas, apenas mudar de Paraíso.

(Poema feito em homenagem à cultura caiçara, foi inscrito no XXV Concurso de Poesia Brasil dos Reis, do Ateneu Angrense de Letras e Artes, em 2009).
 

 
 
 

As Montanhas Sagradas
Cimar Pinheiro

Peregrino por essas montanhas sagradas em busca de paz.
Caminho em silêncio, sozinho, na noite escura,
Ando devagar. Não tenho pressa, nem destino...Percebendo minhas aflições as montanhas guiam meus passos,
Sem deixar marcas, nas trilhas gastas pelo tempo.
O vento da madrugada, forte e gelado, corta o espaço infinito.
Penetra em meu corpo e atinge minha alma,
Como a lança pontiaguda do guerreiro Tapuia.
Sei que não estou tão só como imagino,
Sinto a presença de Deus a meu lado,
Quero sentar-me em uma pedra e clamar por Sua ajuda.
Porém, uma força maior empurra-me montanha acima.

Peregrino por essas montanhas sagradas, na esperança de falar com Deus.
Chego ao cume! Sinto Seu sopro acariciar levemente minha face.
Estou cansado, prostro-me à grande cruz cravada na pedra e choro...
As lembranças se misturam em minha mente, confundindo meus pensamentos.
Verdades e mentiras; angústias e euforias; tristezas e alegrias.
Aproxima-se o momento da sublimação, necessito renovar meu espírito,
Purificar minha alma. Fugir das tentações dos outros caminhos.

No horizonte a noite se faz dia, a luz modifica o espectro...
Silenciosamente, assisto ao majestoso espetáculo da criação.
Um pássaro senta-se ao meu lado, permanecemos imóveis.
Oro em silêncio...
Minha alma está radiante, leve, feliz...
Posso retomar meu caminho. Deus não me abandonou!

(Poema feito durante uma caminhada à noite até o Pico da Bandeira, foi inscrito no XXIII Concurso de Poesia Brasil dos Reis, do Ateneu Angrense de Letras e Artes, em 2007).
 

 
 
 

O Encontro
Cida Moreti

O equilibrista
Na corda bamba.
Uma bela mulher.
Um olhar,
Um sorriso,
Um descuido!
Um corpo que cai...
Um sopro de vida,
Um alento,
Uma esperança vã,
Uma lágrima.
O encontro fatal!
Uma paixão interrompida...

(Poema classificado em 1o. lugar no XXIII Concurso de Poesia Brasil dos Reis, do Ateneu Angrense de Letras e Artes, em 2007)
 

 
 
 

Andarilho errante
Cimar Pinheiro

O medo é como um velho andarilho errante
Caminhando perdido. Sem rumo, sem norte.
Encantoando-se pela floresta, sua eterna amante,
Tentando seduzir a vida e encantar a sorte.

O andarilho... Segue os passos silentes da suçuarana
Ao desvendar a noite e explicar a morte.
O medo... Penetra no íntimo da natureza humana
Inundando de insegurança o ser mais forte.

O andarilho... Margeia lentamente as terras da ribança
Rasgadas furiosamente por águas caudalosas.
O medo... Equilibra-se no limiar da desesperança
Em busca de heresias capitais, impiedosas e mundanas.

O andarilho... Sente o vento tumultuar a calma,
Invadir a mata, misturando sons, cheiros e cores.
O medo... Ataca as profundezas da mais infausta alma
Causando tonturas, calafrios, palpitações e dores.

O andarilho observa o lento rastejar da serpente
Precisa encontrar seu rumo, renascer pra vida.
O medo é um mistério, revelado em sua mente,
Resultante das saudades e tristezas de sua alma ferida.
 

 
     
 

Lamentações
Cimar Pinheiro

Ó Deus! Perdoa-me este lamento,
Perdoa-me as palavras amargas
Que insistem a todo momento
Explicar a esta angustiada criatura,
O porquê de tamanha amargura.

Ó Deus! Perdoa-me a alma ferida,
Perdoa as infâmias e os impropérios
Deste homem que tanto exultou a vida.
Renovando sua energia em cada amanhecer.
Por que deixou minha força se perder?

Ó Deus! Como entender este repente,
Como entender esta impotência,
Esta névoa em minha mente
Penetrando neste flácido corpo meu.
Por que meu pensamento embranqueceu?

Ó Deus! Onde estão minhas recordações,
Onde está meu juízo, meu sonho?
Pessoas, lugares, fatos, amores e paixões;
Sumiu o meu passado, a minha história.
Por que me delineou esta trajetória?

Ó Deus! Hoje minhas mãos tremulam,
Não tenho mais a energia da vida,
Estou imóvel, meus passos vacilam,
Meus olhos agora insistem em lacrimejar.
Por que não deixa minh’alma descansar?

(Este poema escrito depois de uma conversa com meu pai, que já sofria da doença de Alzheimer, foi inscrito no XXI Concurso de Poesia Brasil dos Reis, do Ateneu Angrense de Letras e Artes, em 2005).
 

 
 
 

OS CAMINHOS DA SERRA
Cimar Pinheiro

Os caminhos da serra... Recortados de folhas, flores, riachos e pedras.
Levam-nos ao paraíso.
Momentos fascinantes, quando a natureza exala toda a sua exuberância,
Embalando nossas almas em sensações mágicas.

À noite, uma brisa suave derrama sua seiva sobre a relva
Degustada por cada folha caída ao sabor do vento.
Folhas errantes, sem destino, como nós dois;
Diferentes em suas texturas, em suas essências.
Na escuridão sentimos os sons se materializando em nossas peles
Os olhos manifestam-se em nossas mãos.
O universo se unifica, o momento é raro e eterno,
Não existe tempo nem espaço.
Percorremos silenciosamente os caminhos de nossos corpos;
O coração acelera, o cérebro enlouquece,
A respiração pára... Tudo acontece.
Sussurros, doces arrepios. Respiração conjunta... Ofegante.
No desejo mais oculto, uma mão mais atrevida.
Não temos limites, tabus, preconceitos. Somente a essência do romantismo.
Vivenciamos cada segundo com toda a intensidade,
Traduzido no brilho das estrelas, no reflexo das águas,
Na pele que acaricia a mão que a afaga,
Na ternura de um sorriso, na doçura de um beijo.
O escondido agora se aflora, a alma se liberta. Estamos livres!
Não dá pra controlar a energia das nossas emoções.
Nessa fantástica mistura de sentimentos, uma explosão de amor!

Os caminhos da serra... Recortados de folhas, flores, riachos e pedras.
Levam-nos ao paraíso.
Momentos fascinantes, quando fazemos as mais ardentes promessas
Para que nossas almas não morram lentamente.
 

 
 
 

RODOVIÁRIA
Cimar Pinheiro

Viajar de ônibus é interessante, não pela viagem ou a distância,
O partir e o chegar.
Viajar de ônibus é interessante, por se perder na multidão da estação.
Olhar as pessoas compenetradas, como se fossem fazer a última coisa de suas vidas, talvez a mais importante.

Eu encostado em um balcão, bebericando um café, observo as pessoas que passam, ou melhor, olho através delas.

Tentando imaginar quantos destinos diferentes: a moça de vestido florido, o rapaz de terno azul, o garoto de boné cinza, a senhora gorda de vestido preto e colar colorido, aquele homem de gravata vermelha com pequeninas bolas brancas. Para onde irão?

De repente! Uma risada interrompe meus devaneios: Quem ousa quebrar a monotonia dessa algazarra infernal?
Ah! É um rapaz cego, de camisa azul e branca. Seu olhar não está perdido como o dos outros. Conversa e ri!
Parece entender que as malas carregam seus passageiros.
Elas sim! Estão felizes, viajarão!

 

 
 
 

Sinfonia inacabada
Cimar Pinheiro

Um dia você chegou de repente,
Sem me dar chance de pensar,
Lançou-me seu olhar carente
Pedindo-me só pra te amar.

Perdi-me no tempo e no espaço
Sem encontrar o sim e o não.
Pedia-me apenas um abraço
Cheio de amor e paixão.

Enchi-me de felicidade
Por eu estar em seus braços,
Devolveu minha mocidade
Cobriu-me de beijos e abraços.

Esforcei-me por fazê-la amada
Aplacar a fúria de seu vulcão.
Em minh’alma ficou a ilusão
De uma sinfonia inacabada.

 

 
 
 

 

Arte e Cultura

 

 
     
 
 

© FCM Projetos Especiais. Todos os direitos reservados. Se você for reproduzir, copiar, publicar qualquer texto ou foto dessa página, por favor, cite a fonte de acordo com as leis vigentes no país.
Se precisar, entre em contato conosco.